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O ENCONTRO COM O ACASO
setembro 4, 2018

PÂNICO, MITOLOGIA E PSICOTERAPIA

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A síndrome do pânico é um problema bastante complexo, que pode afetar de forma significativa a vida de quem a enfrenta. Existe uma diferença entre "crise de pânico" e "síndrome do pânico", sendo que a última se caracteriza devido à repetição das crises.

A manifestação da síndrome do pânico nas pessoas se revela por uma imensa sensação de desamparo, fragilidade, e uma profunda impotência diante de uma ocorrência súbita sem qualquer diagnóstico médico que possa localizar dentro do corpo alguma doença. Há relatos de pessoas que não conseguem simplesmente sair da própria casa, por medo de que algo aconteça fora dela.

Com algumas variações, o pânico gira em torno da sensação de morte iminente, os batimentos cardíacos simplesmente se elevam, dificuldade em respirar, sudorese intensa, desconforto no peito, tonturas, medo de perder o controle, desrealização, dor de cabeça, contrações musculares, medo de morrer, de enlouquecer. Depois de algum tempo é comum que as pessoas passem a manifestar o medo antecipatório das crises, sendo que as mesmas geram um profundo sentimento de incapacidade afetando a autonomia e a independência. Viver passa a ser então uma ameaça constante, pelos pensamentos recorrentes de morte. Neste caso, a crise torna-se síndrome.

É importante observar que o medo é uma ferramenta muito importante para a nossa sobrevivência, já que sem o mesmo seríamos facilmente eliminados. Diante de uma situação de perigo, o corpo reage instintivamente elevando a frequência cardíaca e a respiração. O organismo produz nesse momento adrenalina e outros hormônios para se proteger de uma situação de risco de vida. Essas mesmas reações fisiológicas, ocorrem em um ataque de pânico, no qual necessariamente não há um motivo aparente consciente em questão.

Na etimologia e mitologia, pânico é uma palavra que se origina no mito do deus Pã, que etimologicamente significa totalidade ou excesso. Pânico significa um terror súbito, de inicio sem fundamento, fugindo por completo de qualquer controle. Na mitologia, Pã era o deus dos campos, dos rebanhos e pastores. Filho de Hermes e da ninfa Dríope, nasceu metade homem e a outra metade bode. Pã nasceu tão feio que sua própria mãe fugiu assustada. Seu pai Hermes levou Pã para o Olimpo para o divertimento dos deuses que o zombavam e rechaçavam.
A origem da palavra pânico tem origem nesse mito por sua característica física assustadora e suas atitudes irreverentes. Pã era irreverente e vivia assustando as pessoas que andavam sozinhas pela floresta com seus gritos. Passou posteriormente a ser adorado dentro de cavernas escuras, o que causava medo e terror. Assim, a energia arquetípica de Pã faz com que possamos emergir de nossas cavernas escuras, manifestando medo e terror no confronto com nossos aspectos sombrios, escuros e não acessíveis à consciência.

Como humanos carregamos, em nossa condição adaptativa, valores muitas vezes em oposição àqueles que existem na nossa essência, gerando oposição e conflitos intrapsíquicos ao longo de nossas vidas. Buscar estar em ressonância com a própria essência ou identidade é na verdade a busca da realização pessoal de desejos íntimos e profundos, libertando-se de amarras que, a persona coletiva, insiste em nos manter aprisionados. O exercício da paciência para olhar para si mesmo, perceber as falhas e ter coragem para enfrentar as consequências de uma mudança, torna-se essencial.

Pã era um deus natural e instintivo, regido somente pelo prazer, pela libido, com uma sensibilidade exagerada. Esse mito desponta uma ligação grande com os prazeres do corpo e também com a afetividade. Quando o indivíduo mantém seus instintos reprimidos, não consegue compartilhar verdadeiramente seus desejos e sentimentos com quase ninguém, por medo da rejeição, da não aceitação.

Para que haja uma livre expressão das emoções, com o intuito de aliviar a pressão dos conteúdos inconscientes, o analista deve oferecer amparo e uma condição amorosa, auxiliando o cliente gradativamente a se confrontar com imagens, fortalecendo a compreensão de todo seu significado mais profundo, promovendo aos poucos uma dessensibilização dos fatores causadores do medo e da angustia que paralisam. Somente um processo de psicoterapia, que equivale ao confronto consigo mesmo, poderá trazer à consciência, os aspectos que foram reprimidos ou negados. Porque esses aspectos, que outrora estavam descontrolados, invadiram de forma excessiva e descontrolada, a mente consciente, gerando a experiencia do pânico.

A conduta medicamentosa frente a síndrome do pânico pode ser necessária por um determinado período, porém nota-se ser imprescindível a compreensão dos mecanismos inconscientes que se encontram por trás dessa manifestação. A simples eliminação dos sintomas através da medicação sugere a perda de uma oportunidade de se ressignificar à vida, ou aspectos dela que podem se encontrar estagnados e exigindo maiores aprofundamentos. Assim, podemos dizer que através do pânico, Pã faz a comunicação e cabe a nós, portanto, desenvolver a reflexão por ele despertada.

Graça Braga Darzi - Especialista em Psicologia Analítica Junguiana e Membro Analista em Formação pelo IJEP - gracabdarzi@gmail.com

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